Estatísticas e Análises | 1 de agosto de 2019

Medicamentos Antiácidos aumentam o risco de alergias, diz estudo

Pesquisadora líder do estudo espera que as descobertas aumentem a conscientização sobre os efeitos colaterais dos inibidores da bomba de prótons (IBPS)
Medicamentos Antiácidos aumentam o risco de alergias, diz estudo1

Os medicamentos prescritos para reduzir o ácido estomacal estão associados a um aumento do risco de desenvolver alergias, de acordo com um estudo publicado na revista Nature Communications, na terça-feira (30).

No estudo, os cientistas examinaram dados dos registros de saúde de mais de 8 milhões de pessoas na Áustria (97% da população) em um período de quatro anos. Os pesquisadores descobriram que as prescrições de medicamentos antialérgicos aumentaram naqueles que foram prescritos inibidores de ácido estomacal, uma classe de medicamentos que inclui inibidores da bomba de prótons (IBPs) e bloqueadores H2.

A pesquisa descobriu que os riscos foram especialmente elevados em mulheres e pessoas com mais de 60 anos. As descobertas sugerem que interromper o delicado equilíbrio de ácidos e enzimas do estômago pode fazer com que nossos sistemas imunológicos fiquem descontrolados, provocando alergias que não existiam antes.

“Precisamos ter a consciência geral de que o estômago tem uma importante função digestiva, e tem uma espécie de função esterilizadora”, disse Erika Jensen-Jarolim, principal autora do estudo e professora da Universidade de Medicina de Viena. Ela explica que foram feitos testes em ratos, que ingeriram medicamentos antiácidos, e que também desenvolveram alergias.

“O que obtemos em termos de alimentos e bactérias é, na verdade, desnaturado e degradado na função normal do estômago”, disse ela à CNN. “Quando você toma antiácidos, esta função é prejudicada, e nós temos uma janela aberta, e muitas coisas que não são boas entram nos intestinos”, explica.

Não é totalmente compreendido como os medicamentos contribuem para as alergias, mas uma explicação pode ser que a redução do ácido estomacal permite que alimentos não digeridos escapem do nosso estômago. Nosso sistema imunológico, por sua vez, pode ver esses alimentos como uma ameaça.

“Os alérgenos alimentares são proteínas grandes, fazem parte de grandes complexos e sabemos que quando qualquer coisa que comemos atinge o estômago, ele se degrada”, disse Caroline Sokol, médica e pesquisadora do Hospital Geral de Massachusetts.

Inibidores de ácido gástrico também podem induzir um “viés alérgico” em pacientes em busca de problemas sazonais, como o pólen de gramíneas, disse Jensen-Jarolim. “Há evidências de que os medicamentos antiácidos não atuam apenas no sistema digestivo, mas também atuam nas células do sistema imunológico, causando a liberação de substâncias pró-alérgicas”.

Restrições

O professor de farmacologia molecular e clínica da Universidade de Liverpool, Sir Munir Pirmohamed,  disse que o estudo tinha limitações. “Os autores não tinham nenhuma informação sobre as outras doenças e condições que os pacientes tinham, ou sobre outras drogas que foram dadas aos pacientes. Portanto, o achado deste estudo mostra uma associação, mas não prova a causa. Trabalhos adicionais em outras bases de dados, onde há dados sobre as outras condições dos pacientes, são necessários para validar este achado”, disse ele.

Entretanto, Pirmohamed acrescentou que o estudo traz importantes alertas. “Apesar das limitações, há uma mensagem importante aqui: medicamentos comumente usados, como medicamentos anti-úlcera, podem ter efeitos adversos imprevistos, e esses medicamentos só devem ser usados quando houver uma necessidade clínica, pelo menor tempo possível, e na dose mais baixa necessária para controlar os sintomas”, ressaltou.

Stephen Evans, professor de farmacoepidemiologia na London School of Hygiene and Tropical Medicine, concordou que outras drogas também podem ser um fator. “Os IBPs são muitas vezes co-prescritos com aspirina ou medicamentos similares, conhecidos como anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). A aspirina e os AINEs estão entre as drogas que são muito conhecidas por aumentar o risco de uma reação alérgica ”, disse ele.

Jensen-Jarolim espera que seu estudo leve a uma percepção mais ampla. “Os médicos não estão cientes do efeito, principalmente por causa das diretrizes para tratamentos anti-inflamatórios”, disse ela. “Por exemplo, a maioria dos pacientes que entram em hospitais em Viena receberia esse tipo de medicação. Temos que nos afastar dessa abordagem profilática”, alertou.

 

Com informações do The Guardian e CNN. Edição do Setor Saúde.

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