Estatísticas e Análises | 11 de fevereiro de 2021

Estudo do Incor reforça alta incidência de sequelas cognitivas deixadas pela Covid-19 após infecção

Até mesmo os assintomáticos são acometidos
Estudo do Incor reforça incidência de sequelas cognitivas deixadas pela Covid-19 em pacientes recuperados

Um estudo do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), reforçou outros estudos que demonstram os efeitos da Long Covid, ou Síndrome Pós-Covid – muitos pacientes que tiveram Covid-19 relatam sinais e sintomas após se recuperar da doença. Os resultados do estudo do Incor, que analisou as consequências cognitivas que a doença pode deixar no indivíduo, apontam que não só aqueles que tiveram a doença na forma mais grave sofreram com alguma sequela cognitiva. Aqueles que tiveram sintomas mais leves, incluindo inclusive os assintomáticos, também sofrem as consequências do coronavírus no corpo humano após a cura.

“Nossa pesquisa começou em meados de março, quando hipotetizamos que a falta de oxigênio no cérebro ou no organismo humano poderia causar um grande prejuízo nas funções cognitivas”, detalha a médica Lívia Stocco Sanches Valentin, neuropsicóloga do Incor FMUSP, professora e pesquisadora.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, Lívia explica que, no início, foram avaliados 185 pacientes e que agora o Incor tem 430 pacientes avaliados. Conforme a especialista, os resultados da pesquisa sobre diagnóstico e reabilitação da disfunção cognitiva pós-Covid são tão importantes que a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) aguarda os resultados finais do estudo, no intuito de adotar a metodologia desenvolvida pelo Incor em âmbito mundial.

Para a especialista, é muito importante não esperar para o agravamento das condições de saúde após a infecção pela Covid, sendo necessário realizar o acompanhamento dos pacientes recuperados. “Se você foi acometido pela Covid, se reabilite o mais rápido possível”, alerta.

A pesquisadora usou o jogo digital MentalPlus®, criado por ela em 2010, para avaliar pessoas que tiveram covid-19 em vários estágios, idades e classes econômicas. Além do caráter avaliativo, o jogo também é uma ferramenta para reabilitação.

Os resultados mostram que a recuperação física nem sempre implica na recuperação cognitiva, diz a pesquisadora ao portal EBC. “Isso deixa clara a importância de se incluir na avaliação clínica dos pacientes pós-covid-19 de qualquer gravidade sintomas de problemas cognitivos como sonolência diurna excessiva, fadiga, torpor e lapsos de memória”, explica a médica, “para que, com o diagnóstico precoce, possa haver uma rápida intervenção terapêutica”.

“Eu sabia que, na verdade, a consequência era no pós-Covid, então quis fazer um estudo para o depois, porque a Covid poder deixar sequelas. Eu espero o paciente se recuperar, para tratar o depois, o que sobrou de resquício da doença”, completa Lívia. Sequelas envolvendo o sistema cardiorrespiratório, pressão arterial e diabete são mais comuns de serem citadas, mas o aspecto cognitivo também é afetado. Mesmo sendo mínimo e não tão perceptível, uma falha de memória ou uma falta de atenção podem ser sinal de alguma sequela.

Com o diagnóstico precoce, o tratamento e o acompanhamento funcionam de forma mais eficiente, já que nosso cérebro trabalha em uma condição de quanto melhor for o estímulo e mais rápido for este estímulo, melhor a pessoa vai ficar no futuro, algo que independe da idade.

Capacidade visuoperceptiva

Outra consequência detectada no estudo é a diminuição da capacidade visuoperceptiva. “Muitas pessoas perderam a coordenação motora e caem muito”, diz a especialista. Ela explica que, segundo exames de ressonância magnética funcional, isso acontece porque a função executiva é afetada em pessoas que já contraíram o Sars-Cov-2.

“Em uma pessoa saudável, essa função faz com que ela planeje o dia e busque estratégias para atenuar problemas, por exemplo. Se a pessoa perde essa função ou se ela ficar comprometida, isso pode interferir no trabalho e nas relações sociais, e, com isso, levar à depressão, ansiedade, angústia e agressividade”.

A médica do InCor detalha que as sequelas cognitivas acontecem porque o vírus entra pelas vias aéreas, compromete o pulmão e, com isso, baixa o nível de oxigênio. “A dessaturação de oxigênio vai para o cérebro, acomete o sistema nervoso central e afeta as funções cognitivas”.

Segundo o estudo, a memória de curto prazo de 62,7% dos participantes foi afetada. Já a de longo prazo, teve alterações em 26,8% dos voluntários. Em relação à percepção visual, o impacto foi notado em 92,4%.

“Por causa dos problemas que a Covid-19 acarreta nos lobos parietais e occipitais; estes lobos são responsáveis pelo planejamento; organização visuoperceptiva e visuoconstrutiva; pelas sensações corporais; pelos movimentos primários entre outras funções importantes do ser humano”, explicou Lívia.

Segundo a neuropsicóloga, o quadro é passível de reversão, por meio de exercícios cognitivos específicos como os do aplicativo MentalPlus® utilizado no estudo. Essa atividade funciona como uma “musculação mental”, explica a pesquisadora.

Ao forçar a atividade do cérebro, o órgão é estimulado a um maior consumo de oxigênio, melhorando paulatinamente seu desempenho. “Quanto mais cedo tiver início a terapia cognitiva, mais rápida será a recuperação e, consequentemente, menores os prejuízos mental, emocional, físico e social para essas pessoas”.

Quem deseja mais informações sobre o jogo digital deve entrar no site do InCor e acessar a página de voluntariado para pesquisa, no menu à direita. Nesta página é possível acesso o formulário de inscrições.

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Com informações EBC USP. Edição SS.

 



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