Tecnologia e Inovação | 28 de novembro de 2018

Entrevista exclusiva: a cirurgia robótica aliada à saúde do homem

Portal Setor Saúde conversou com o urologista do Hospital Moinhos de Vento, André Berger, um dos pioneiros do procedimento no Brasil
Entrevista exclusiva a cirurgia robótica aliada à saúde do homem

“Novembro é o mês que já está marcado como o mês da saúde do homem”. Essa frase, do médico urologista do Hospital Moinhos de VentoAndré Berger, sintetiza a importância da tradicional campanha Novembro Azul, mês de conscientização mundial sobre doenças masculinas, com ênfase na prevenção e diagnóstico precoce do câncer de próstata – com diagnóstico precoce, as chances de cura são de 90%. Este é o segundo tipo de câncer mais comum entre os homens no Brasil (atrás do câncer de pele não-melanoma), com 68 mil casos estimados para 2018, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). A cada ano, são estimadas cerca de 13 mil mortes por câncer de próstata no país.

O urologista André Berger – radicado há 10 anos nos EUA, onde é  professor na University of Southern California (USC), sendo um dos pioneiros da cirurgia robótica no Brasil (já realizou aproximadamente 2 mil procedimentos) – atua como líder do projeto de cirurgia robótica do Hospital Moinhos de Vento – lançado oficialmente no final de 2017. Em 2018, a instituição realizou mais de 60 cirurgias robóticas (a maioria procedimentos de próstata), que proporciona, por meio de técnica minimamente invasiva, menos sangramentos e maior rapidez para a recuperação dos pacientes. Em março, o Moinhos transmitiu ao vivo a prostatectomia radical (retirada da próstata), realizada pelo Dr. André Berger com o robô Da Vinci, de um paciente com câncer de próstata. No dia 14 de novembro, o Moinhos realizou a primeira cirurgia robótica torácica do Sul do país.

A cirurgia robótica está presente no Brasil há 10 anos – em 2008, o Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, realizou o primeiro procedimento. Atualmente, há 39 robôs em operação no país. Tradicionalmente reconhecida pela realização de procedimentos de próstata e rins, a cirurgia robótica também está presente em outras especialidades, como cirurgia geral, torácica, ginecológica, oncológica, do aparelho digestivo. No Rio Grande do Sul, o primeiro procedimento foi realizado em 2013, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre – junto ao Moinhos, são as duas instituições que atualmente contemplam o procedimento no RS.

Equipamento Da Vinci, da empresa Intuitive, já comercializou mais de 4,4 mil sistemas robóticos

Equipamento Da Vinci, da empresa Intuitive. Já foram comercializados mais de 4,4 mil sistemas robóticos em todo mundo pela empresa.

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O Portal Setor Saúde conversou com exclusividade com André Berger. O especialista falou sobre Novembro Azul, cirurgias robóticas disponíveis no Hospital Moinhos de Vento, a realidade nos EUA e no Brasil, cobertura na saúde suplementar e no SUS, número de cirurgias já realizadas pelo Hospital, etapas de treinamento dos cirurgiões até a prática clínica e como a Inteligência Artificial se relaciona hoje com a cirurgia robótica e como será no futuro.

Confira os principais trechos da entrevista (a íntegra pode ser conferida em vídeo no final da matéria).

Novembro azul e a importância da prevenção

“Novembro realmente é um mês importante, que já está marcado como o mês da saúde do homem. O mês que os homens recebem bastante informação. E estas informações vão, primeiro, ajudar a prevenir problemas e, segundo, se os homens forem diagnosticados com algum problema de saúde, que esses problemas sejam diagnosticados precocemente, e que as soluções possam ser dadas de maneira que se tenha menos danos para a saúde daquela pessoa que é afetada pelo problema”.

Cirurgias robóticas na área de urologia do Hospital Moinhos de Vento

De acordo com Berger, o setor de urologia do Hospital Moinhos de Vento conta com cirurgia robótica para o tratamento para câncer de próstata, rim, bexiga. “E, também em ocasiões especiais, para hiperplasia de próstata e outras cirurgias reconstrutoras, como por exemplo, quem tem o estreitamento do ureter (canal que liga o rim à bexiga), e mulheres com prolapso genital também podem se beneficiar da cirurgia robótica”.

De acordo com o urologista, o grande diferencial do programa do Moinhos é a experiência dos profissionais. “Nesse hospital e em outros que o nosso time já trabalhou, acabamos implementando programas, tratando muitos pacientes, desenvolvendo técnicas revolucionárias no tratamento das doenças mencionadas”.

Berger explica que a grande vantagem da cirurgia robótica é oferecer um tratamento minimamente invasivo, em um procedimento feito com pequenos cortes, em que o cirurgião dispões de uma visão tridimensional e em alta qualidade para realizar a cirurgia. “É importante ressaltar: o robô não faz nada sozinho, precisamos de cirurgiões experientes conduzindo os casos. Devido à nossa experiência, conseguimos oferecer aos nossos pacientes soluções para problemas muito complexos, como por exemplo: pacientes com câncer de próstata em situações desafiadoras, como por exemplo com obesidade extrema, cirurgias abdominais prévias”.]

Cirurgias robóticas em outras áreas

A vantagem da cirurgia robótica em outras áreas também foi apontada pelo urologista. “Do ponto de vista de outras cirurgias, em pacientes com tumores de bexiga, invadem as camadas mais profundas da bexiga, conseguimos também com a cirurgia robótica, retirar a bexiga e gânglios linfáticos, e até fazer novas bexigas com o intestino, tudo isso com o robô. Da mesma forma, para tumores do rim, conseguimos de maneira minimamente invasiva, remover tumores dos rins do paciente, preservando a grande parte do rim normal (nefrectomia parcial)”.

Cirurgia robótica nos EUA e no Brasil

“Tem uma diferença grande entre sistemas instalados nos EUA em relação ao Brasil. Os americanos têm mais acesso à cirurgia robótica porque há mais sistemas instalados, mas também porque há mais cirurgiões treinados. Nos últimos dois anos, o número de plataformas robóticas instaladas no Brasil dobrou. A perspectiva é que esse número cresça de maneira significativa. Isso vai ser muito positivo, porque mais hospitais em diferentes regiões do Brasil vão ter sistemas robóticos. Mas uma coisa que é importante que aconteça na mesma velocidade: que o cirurgiões tenham a oportunidade de se tornarem especialistas em cirurgia robótica, para que toda a potencialidade do robô oferece possa ser exercida para benefício maior dos pacientes”.

Cobertura pelos planos de saúde e SUS no Brasil

“A não cobertura da cirurgia robótica em planos de saúde no Brasil, pelo menos pela maioria dos planos, é uma coisa que dificulta um pouco mais o acesso da população à tecnologia robótica. Mas, certamente, quando chegar o momento, tenho certeza que há muitas pessoas competentes analisando esse assunto. Se a tecnologia robótica for oferecida pelos planos de saúde, e também for disponibilizada em larga escala em hospitais públicos, certamente será um grande avanço para o tratamento das doenças que podem ser manejadas por cirurgia robótica”.

O crescimento das cirurgias robóticas no Hospital Moinhos de Vento

Uma transmissão ao vivo deu o pontapé inicial das cirurgias robóticas do Hospital Moinhos de Vento. Berger explica, de julho a novembro, foram realizados mais de 60 procedimentos – “a grande maioria são de procedimentos urológicos, e dentro destes procedimentos urológicos, a maioria é cirurgia de próstata”.  O urologista aponta que, atualmente, a instituição tem de 10 a 12 cirurgiões ativamente envolvidos no programa, e mais cirurgiões serão incorporados. “E, gradualmente, outras especialidades estão sendo incorporadas: além da urologia, temos a cirurgia geral, digestiva, torácica. O plano também é que a cirurgia ginecológica seja contemplada, além de cirurgia colorretal, otorrino, entre outras”.

Habilitação do cirurgião para realizar a cirurgia robótica

“Essa preparação envolve várias etapas. Uma etapa é o estudo de módulos online que estão disponíveis. Ou seja, qualquer médico pode estudar e fazer os testes online. A segunda etapa envolve simulação, temos sinalizadores para treinar o manuseio do robô, para o cirurgião ficar mais familiarizado de como funciona a máquina. A terceira etapa envolve um treinamento em laboratório, com animais. E depois, finalmente, o cirurgião vai começar a introduzir isso na sua prática clínica. Ele vai sendo monitorado por proctors, que são cirurgiões experientes que ficam na sala de cirurgia, junto ao cirurgião que está em treinamento, auxiliando no desenvolvimento daquelas habilidades específicas para a cirurgia robótica”.

Inteligência Artificial e o futuro da cirurgia robótica

 “Com relação a Inteligência Artificial [IA], o que temos hoje, em termos práticos: o robô cirúrgico, o Da Vinci, não faz nada de maneira autônoma. O que se faz de maneira autônoma relacionado ao sistema Da Vinci: todas as informações de movimentos que são feitos durante a cirurgia são registrados e vão para um computador central da empresa [Intuitive] que fabrica os robôs. Só baseado nesses movimentos registrados, é possível dizer se os cirurgiões são experts ou não, mesmo sem olhar ou estar presente durante a cirurgia. E estes movimentos também estarão relacionados aos desfechos clínicos dos pacientes. Ou seja, cirurgiões experientes estarão correlacionados com desfechos melhores”, explica Berger.

De acordo com o urologista, em um primeiro passo, a IA pode identificar quem opera bem ou mal utilizando a tecnologia robótica. “Primeiro, a gente pode estudar as deficiências específicas daqueles cirurgiões e tentar corrigir isso. Num segundo momento, se temos todas as informações, que chamamos de Big Data, e se você consegue compilar aquele Big Data e utilizar o Machine Learning, então o passo futuro seria a cirurgia automatizada”, explica. Porém, o médico reconhece que esta é uma realidade ainda distante.

Hospital Moinhos de Vento promove workshop em Cirurgia Robótica

O Hospital Moinhos e Vento realiza, nos próximos dias 7 e 8 de dezembro, o 1º Worshop e Curso Hands On em Cirurgia Robótica. Voltado aos profissionais do corpo clínico do hospital e de outras instituições do país, o evento que acontece no Anfiteatro Schwester Hilda Sturm, no bloco C da instituição, terá transmissão ao vivo do Centro Cirúrgico, além de palestras e discussões de casos. O workshop terá a presença de convidados de outros hospitais de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraná.

A programação completa pode ser acessada pelo site www.iepmoinhos.com.br/eventos. As inscrições podem ser feitas pelo e-mail eventoscientificos@hmv.org.br, e as informações, obtidas pelo telefone (51) 3535-8735. 

Assista a entrevista completa:

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