Série Arena Inovação: Pelotas mostra que o futuro da saúde também pode começar no interior
UFPel e Pelotas Parque Tecnológico preparam laboratório de genômica clínica e um hub de saúde e biotecnologia para 2027.
A quinta e última matéria da série especial do Setor Saúde com os destaques da Arena Inovação & Conexões da Health Meeting Brasil / SINDIHOSPA 2026 vai a Pelotas. Dois entrevistados contam como a cidade transforma pesquisa em serviços e negócios de saúde: Vinicius Farias Campos, professor de Biotecnologia da UFPel e presidente do PELOTAS PARQUE TECNOLÓGICO, e Leandro Gausmann, sócio da COPLACE COWORKING, que tem uma unidade dentro do parque tecnológico, e membro do Conselho de Administração do Parque.
A Health Meeting 2026 foi realizada nos dias 22, 23 e 24 de setembro, no Centro de Eventos FIERGS, em Porto Alegre. Leandro participou em 23 de setembro do painel “O Ecossistema de Inovação em Saúde no RS: onde estamos e para onde vamos”, com Luiz Carlos da Silva, secretário de Inovação de Porto Alegre, e David Viegas, do SEBRAE RS, com mediação de Morgana Piazenski, da FUNDMED. Vinicius esteve no dia 24 no painel “Seu DNA prevê o futuro? Da genômica ao diagnóstico rápido”, ao lado de Willyan Hasenkamp, da BIOSENS, e da Dra. Barbara Kunzler, da EPIGENICA, com mediação da Dra. Nicole Henckes, da ATITUS.
Na UFPel, Vinicius coordena o Laboratório de Genômica Estrutural e o Laboratório de Genômica Clínica e é superintendente de Inovação e Desenvolvimento Interinstitucional da universidade.
A ponte entre a universidade e o mercado
Para Vinicius, a feira reúne quem produz conhecimento, quem desenvolve tecnologias, quem presta assistência, quem investe e quem toma decisões no sistema de saúde. “Essa aproximação é essencial porque uma descoberta científica não chega ao paciente apenas por ter sido publicada. Ela precisa ser transformada em um método validado, seguro, regulado, economicamente viável e integrado à rotina dos serviços de saúde”, afirma.
Ele atua nessa interface, na pesquisa pela UFPel e na conexão com o mercado pelo Parque e pelo Laboratório de Genômica Clínica. Por isso considera a Health Meeting um evento perfeito para levar ao setor produtivo o que a universidade produz e trazer para a pesquisa as demandas de hospitais, laboratórios e empresas. “Esse diálogo encurta o caminho entre a descoberta científica e sua aplicação e demonstra que a ciência de fronteira também pode nascer e gerar impacto no interior”, diz.
Leandro vê a Health Meeting como o principal evento gaúcho para o setor de negócios em saúde. Segundo ele, levar a um mesmo espaço os atores de uma área que respira tecnologia, pesquisa e inovação dá visibilidade ao que também acontece fora da capital. “O interior é pujante, gera muito conhecimento principalmente através da capilaridade das instituições de ensino e isso ajuda a criar pequenos hubs regionais”, afirma. Mostrar o que a indústria regional especializada e a pesquisa produzem, completa, torna a região relevante nos ecossistemas estadual e nacional.
Leandro vê a Health Meeting como o principal evento gaúcho para o setor de negócios em saúde.
O que o DNA já entrega na prática clínica
O painel de Vinicius perguntava se o DNA prevê o futuro. “O DNA não é uma bola de cristal nem uma sentença. Ele revela predisposições e probabilidades que precisam ser interpretadas junto com a história familiar, os dados clínicos, o ambiente e os hábitos de vida”, responde o professor.
Segundo ele, já fazem parte da prática clínica os testes para determinadas síndromes hereditárias de câncer, como as associadas aos genes BRCA1 e BRCA2, o diagnóstico de muitas doenças raras e a análise molecular de tumores para apoiar a classificação e a escolha de tratamentos. Algumas aplicações da farmacogenômica também já são usadas, com variantes genéticas ajudando a selecionar medicamentos ou ajustar doses.
Vinicius Farias Campos é professor de Biotecnologia da UFPel e presidente do PELOTAS PARQUE TECNOLÓGICO.
O desafio, para Vinicius, é ampliar o acesso a esses exames. Foi com esse objetivo que nasceu o Laboratório de Genômica Clínica, o GenoClin, que ele descreve como o primeiro do Rio Grande do Sul estruturado para realizar esses exames no próprio Estado. “Em outras palavras, passamos a reunir pesquisa, capacidade tecnológica e aplicação clínica aqui, no nosso quintal”, afirma. O passo, segundo ele, vai colocar essas análises à disposição de toda a população gaúcha.
Da pesquisa ao diagnóstico
No Laboratório de Genômica Estrutural da UFPel, o grupo de Vinicius investiga como variações genéticas e alterações epigenéticas, em especial padrões de metilação do DNA e microRNAs, podem virar biomarcadores, métodos diagnósticos e ferramentas de apoio à decisão clínica.
Uma das principais linhas envolve tumores pediátricos do sistema nervoso central, com destaque para o meduloblastoma. A equipe já analisou perfis de metilação em amostras brasileiras e desenvolveu uma ferramenta computacional nacional para auxiliar na classificação molecular desses tumores. O laboratório trabalha também com bioinformática, genômica humana, predisposição hereditária ao câncer, alterações moleculares em tumores e desenvolvimento e validação de métodos diagnósticos.
“Nosso objetivo não é apenas gerar artigos científicos. Buscamos transformar os resultados em protocolos, softwares, propriedade intelectual, formação de profissionais e soluções que possam ser efetivamente incorporadas aos serviços de saúde”, diz. A implantação do GenoClin, para o professor, é um passo decisivo nessa transição entre a pesquisa e a aplicação clínica.
O mapa da zona sul
Leandro descreve um potencial “gigantesco” na zona sul do Estado. No eixo Pelotas-Rio Grande estão seis instituições de ensino: UFPel, FURG, UCPel, IFSul, IFRS e UniSenac. As três primeiras têm cursos de Medicina. A UFPel tem a pós-graduação em Biotecnologia com conceito 7 na avaliação da CAPES. A FURG mantém uma unidade EMBRAPII de robótica e automação, e a UCPel tem o HSim, que Leandro aponta como o primeiro hospital de simulação do Estado.
A região soma ainda dois parques tecnológicos, quatro incubadoras de base tecnológica e, em Pelotas, o APL da Saúde. Há indústrias de relevância nacional, como LIFEMED, FREEDOM, CONTRONICS e YLLER, além de hospitais universitários, Santa Casa e hospitais privados.
Para Leandro, esse conjunto mostra que o caminho foi bem trilhado e que ainda surgirão demandas, serviços e produtos cuja dimensão nem é possível medir hoje. Ele reconhece os obstáculos. “Sabemos que a transformação de pesquisas em produtos viáveis para o mercado, não tem a velocidade que gostaríamos, temos algumas barreiras, principalmente regulatórias, onde precisamos evoluir. O futuro próximo me parece bem promissor”, afirma.
O Parque e a COPLACE na saúde
Inaugurado em 2016, o PELOTAS PARQUE TECNOLÓGICO é uma associação sem fins lucrativos e de gestão independente. Reúne universidades (UFPel, UCPel, IFSul e UniSenac), EMBRAPA, instituições privadas e entidades de pesquisa. No mesmo ambiente convivem as incubadoras Conectar, da UFPel, Ciemsul, da UCPel, Hélice, do IFSul, e Senatec, da UniSenac.
PELOTAS PARQUE TECNOLÓGICO.
A COPLACE, que mantém o coworking do Parque, trabalha com as diretorias para aproximar as empresas do ecossistema, as empresas tradicionais da região e outros ambientes de inovação, com ações de formação computacional. O Parque também sedia o APL da Saúde, o que traz para dentro dele as articulações e iniciativas do setor.
Entre as atividades estão o programa InovaPel, com meetups, rodadas de negócios, eventos de empreendedorismo e oficinas para jovens, e o RoboPel, que leva ao Parque alunos de todas as escolas municipais de Pelotas uma vez por ano. O Parque busca atrair eventos de saúde e biotecnologia, como o SulBiotec, o Simpósio de Oncologia e o Congresso de Alergologia. Leandro cita ainda o TechBusiness, da ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE PELOTAS, que não é focado em saúde, mas nos últimos dois anos elegeu startups do setor entre os destaques da batalha de startups.
“Muitas atividades não tem na saúde o seu fim, mas a saúde está integrada no contexto geral, entendendo que a troca com outras áreas, com outros setores, são saudáveis para manter o ambiente criativo, criando assim soluções melhores”, diz Leandro.
Em 2026, o Parque fez o primeiro diagnóstico de impacto socioeconômico e de inovação, com ano-base 2025. Segundo Leandro, o levantamento mostra que o Parque já representa 1,1% do PIB de Pelotas, com R$ 135,3 milhões em faturamento anual, 656 pessoas envolvidas diretamente e massa salarial de R$ 47,6 milhões por ano.
Genômica clínica e hub de saúde em 2027
Os dois entrevistados apontam os mesmos próximos passos. O Laboratório de Genômica Clínica deve iniciar as atividades em breve, na atual estrutura do Parque. Em fevereiro de 2027, está prevista a inauguração do Hub de Inovação em Saúde e Biotecnologia, em um novo local, em parceria com a LIFEMED. Para Leandro, o Hub tem o potencial de ser um grande catalisador da inovação em saúde.
Vinicius explica o papel de cada estrutura. O Hub vai oferecer infraestrutura para desenvolver e validar tecnologias, e o GenoClin vai transformar conhecimento genômico em fluxos laboratoriais aplicáveis e confiáveis. “Para os pacientes, isso significa a possibilidade de acessar exames especializados mais perto de onde vivem, reduzindo a dependência dos grandes centros”, afirma.
Para as empresas, segundo ele, a região passa a oferecer competências científicas, infraestrutura e parceiros para provas de conceito, validação de tecnologias, proteção da propriedade intelectual, etapas regulatórias e chegada de novos produtos ao mercado. “É uma cadeia que liga pesquisa, cuidado e desenvolvimento econômico”, resume.
Talentos e uma medicina sem CEP
Sobre o que o interior precisa para gerar e manter empresas e talentos, Leandro cita a capilaridade da academia, a presença de indústrias, a qualidade dos serviços e um ente público que apoie os empreendedores na formalização dos negócios. Ele relativiza a saída de profissionais. “Talvez ‘perder um talento’, não seja também tão ruim, o que é interessante é que quando esse talento estiver fora da região, ele consiga ver que tem um ambiente para retornar”, afirma. Voltar com novas experiências, segundo ele, ajuda a oxigenar o ecossistema.
Na visão de Leandro, as regiões que reunirem academia, indústria, serviço, poder público, incubadoras e parques tecnológicos especializados terão um diferencial. Pelotas e o eixo Pelotas-Rio Grande, diz, estão à frente nesse movimento.
Vinicius fecha com o tema do acesso. “O grande desafio já não é apenas sequenciar DNA. É assegurar que a informação gerada seja confiável, clinicamente útil e acessível para quem precisa. A medicina de precisão não pode ter CEP”, afirma. Se essas tecnologias ficarem restritas a poucas capitais ou a quem pode pagar, alerta, o país terá ciência avançada convivendo com um sistema de acesso atrasado.
O professor defende ainda que o investimento público em exames genéticos e genômicos ajude a produzir conhecimento sobre a própria população brasileira, com consentimento, governança, segurança e proteção dos dados. Isso melhora a interpretação dos resultados e torna os próximos diagnósticos mais precisos. “Pelotas reúne universidade, hospitais, empresas, parque tecnológico e capacidade científica para demonstrar que o interior não precisa ser apenas destino de tecnologias desenvolvidas em outros lugares. Também pode ser o lugar onde o futuro da saúde começa”, conclui.
Aline Jansen, head de Inovação da Health Meeting, tem atuado constantemente na interlocução entre o interior e a capital. “É fundamental dar voz e visibilidade às iniciativas do interior e apoiar conexões assertivas entre a academia e o mercado. O trabalho do Leandro, do Vinicius e de todos os players que eles citaram é muito importante, porque precisamos de atores relevantes no interior. Ao mesmo tempo, precisamos mostrar na capital e nos grandes centros como isso é feito e facilitar conexões com quem muitas vezes nem sabe que essas iniciativas existem”, afirma.
A Arena Inovação & Conexões
A iniciativa tem como parceiros o SEBRAE RS e a UNICRED PORTO ALEGRE, que participa por meio do UNI4LIFE, hub de inovação da cooperativa. Durante os três dias do evento, reuniu especialistas, empreendedores, investidores, lideranças e profissionais da saúde. A programação começou com “IA na Saúde e o Cuidado Humanizado” em 22 de setembro, tratou de “Empreendedorismo na Construção do Futuro da Saúde” em 23 e de “A Era da Longevidade abrindo Novos Mercados” em 24.
Os painéis dividiram o palco com a Batalha de Startups: foram rodadas de pitches ao longo do evento, com a final na manhã de 24 de setembro e a premiação no encerramento. A programação completa para quem tem interesse em saber os temas discutidos e os palestrantes que participaram está no site da Health Meeting.
HEALTH MEETING BRASIL/SINDIHOSPA 2026
O evento é uma realização da HEALTH MEETING BRASIL FEIRAS E CONGRESSOS, em parceria com o SINDIHOSPA. Patrocínio: UNICRED PORTO ALEGRE, UNIMED PORTO ALEGRE e Medlive. Apoio: SEBRAE RS. Media partners: BAND RS, Setor Saúde e Brasil Inovador. A próxima edição da Health Meeting Brasil/SINDIHOSPA acontecerá nos dias 28, 29 e 30 de setembro de 2027, também na FIERGS.