Linfomas: o que são e como tratá-los?
A médica hematologista do Hospital Moinhos de Vento, Erica Lammerhirt Ottoni esclarece dúvidas importantes sobre a doença em uma entrevista que elucida sobre o que é o câncer linfático, a importância do diagnóstico precoce e como se dá a intervenção na maioria dos casos
Durante o mês de setembro, acontece o Dia Mundial de Conscientização sobre Linfomas. A médica hematologista do Hospital Moinhos de Vento, Erica Lammerhirt Ottoni esclarece dúvidas importantes sobre a doença em uma entrevista que elucida sobre o que é o câncer linfático, a importância do diagnóstico precoce e como se dá a intervenção na maioria dos casos.
Qual é a incidência de diagnóstico de linfoma no mundo?
Erica Lammerhirt Ottoni – O Ministério da Saúde revela que mais de 735 mil pessoas são diagnosticadas com linfoma, a cada ano, no mundo. O Dia Mundial de Conscientização sobre Linfomas — 15 de setembro — é uma iniciativa global, organizada pela Lymphoma Coalition desde 2004. Em 2022, o foco é por melhorias no diagnóstico, tratamento e rastreamento de linfomas.
O que são os linfomas?
Erica Lammerhirt Ottoni – Linfomas são tumores que se originam dos diferentes tipos de linfócitos — células importantes do sistema imunológico. Elas circulam naturalmente pelo corpo para manter o organismo livre de ameaças, como infecções por vírus, bactérias, fungos e até mesmo de outros tumores. Como todas as células do nosso organismo, podem sofrer mutações genéticas, perdendo sua função e aumentando a sua capacidade de multiplicação. Quando isso ocorre, os linfomas se desenvolvem e, pela característica de circular, muitas vezes já se apresentam em vários locais do corpo. Os órgãos linfáticos, principalmente os linfonodos (também conhecidos como gânglios) são os mais frequentemente envolvidos pelas células tumorais dos linfomas.
PUBLICIDADE
Quais os tipos de linfoma existentes?
Erica Lammerhirt Ottoni – Existem muitos tipos de linfomas. Os mais comuns são: Linfoma Não Hodgkin de Grandes Células, Linfoma Folicular e Linfoma de Hodgkin. O Linfoma Hodgkin costuma se apresentar em pacientes mais jovens. Apesar da variedade, a apresentação clínica é semelhante.
Quais são os principais sintomas?
Erica Lammerhirt Ottoni – Os pacientes geralmente notam linfonodos (ou gânglios) aumentados em algumas regiões do corpo, como pescoço, axilas, virilha; que podem aumentar lenta ou rapidamente. Com a evolução da doença surgem outros sintomas, como cansaço, fraqueza, perda de apetite, febre no final do dia e suores fortes durante a noite.
Qual o sinal de alerta para buscar uma avaliação médica?
Erica Lammerhirt Ottoni – Ao notar gânglios aumentados, sugiro agendar uma consulta médica (com um hematologista) para a realização de um exame físico e a verificação de outros potenciais sintomas da doença. Dependendo da localização desses linfonodos aumentados, e de outros sintomas, indicamos a realização de exames de sangue a fim de excluir a possibilidade de serem apenas infecções, que podem se apresentar da mesma forma que os linfomas. Também pode ser realizada a biópsia cirúrgica do linfonodo acometido. A partir desta biópsia, saberemos qual linfoma e poderemos decidir o melhor tratamento para o paciente.
Qual é o tratamento utilizado na maioria dos casos?
Erica Lammerhirt Ottoni – A maioria dos linfomas é tratada com combinações de terapias alvo (medicações que atingem seletivamente as células tumorais) associadas à quimioterapia. E não é preciso internação hospitalar, ou seja, o paciente recebe o tratamento no ambulatório de quimioterapia e retorna para sua casa.
Quais as chances de cura?
Erica Lammerhirt Ottoni – As taxas de cura (ou a resposta ao tratamento) depende de qual é o linfoma que o paciente apresenta. Em geral, é uma patologia com excelentes respostas aos tratamentos atuais. Porém, alguns pacientes podem necessitar de mais de um tratamento ou terapias mais intensas, em regime de internação hospitalar. As terapias para as doenças hematológicas têm progredido fortemente, tanto em melhores resultados, quanto em diminuição da toxicidade do tratamento. O uso de anticorpos monoclonais, que são um tipo de terapia alvo contra as células do linfoma, trouxe grande melhora nas taxas de resposta. Atualmente, novos anticorpos monoclonais estão em pesquisa, com grande expectativa.
Existem progressos na medicina em relação a esses tratamentos?
Erica Lammerhirt Ottoni – Recentemente, surgiu o uso de células imunológicas modificadas para combater o linfoma. Esta terapia se chama ‘CAR-T’ e se baseia na retirada de linfócitos saudáveis do paciente, que são submetidos a uma modificação genética em laboratório para se tornarem células que vão eliminar o linfoma. Depois de alteradas, estas células são devolvidas ao organismo do paciente. Este é um tratamento que, em breve, deve ser usado no Brasil em pacientes que não respondem aos tratamentos atualmente utilizados.
PUBLICIDADE
A importância do diagnóstico precoce?
Erica Lammerhirt Ottoni – Os linfomas pertencem a um grupo de doenças com muitas opções de tratamento e alta probabilidade de controle ou cura da doença. No entanto, é um processo demorado, que envolve tempo, desde o diagnóstico até o término dos cuidados. Sendo assim, é importante procurar atendimento médico precocemente e poder contar com apoio dos familiares para manter a qualidade de vida, durante todo o processo.
Como médica ao acompanhar os tratamentos, qual o aprendizado que tira dessas relações?
Erica Lammerhirt Ottoni – Parabenizo todos os meus pacientes e seus familiares pelos ensinamentos que me deram sobre como enfrentar com coragem, persistência e esperança essa doença. Este cuidado direto com eles nos torna melhores médicos para ajudá-los a vencer esse desafio. Também cumprimento os pesquisadores e voluntários que participam de estudos clínicos, proporcionando melhores tratamentos para o linfoma.
Crédito da foto: Leonardo Lenskij. Produção Hospital Moinhos de Vento. Edição SS.