Gestão e Qualidade | 8 de abril de 2026

HIMSS 2026: o que o Brasil pode aprender sobre IA, interoperabilidade e sustentabilidade na saúde

No HIMSS 2026, líderes de saúde brasileiros puderam explorar como inteligência artificial, interoperabilidade e práticas sustentáveis estão transformando hospitais e clínicas, impulsionando eficiência e inovação – artigo escrito por Ximena Mosca (Healthcare Account Director na Plusoft).
HIMSS 2026 o que o Brasil pode aprender sobre IA, interoperabilidade e sustentabilidade na saúde

O HIMSS Global Health Conference & Exhibition 2026, realizado em março, em Las Vegas, considerado o maior encontro mundial de tecnologia e inovação na saúde, deixou uma mensagem objetiva: a transformação digital da saúde entrou em uma nova fase, com menos discurso e mais execução orientada por impacto mensurável.


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Principais temas do HIMSS 2026

A inteligência artificial se consolidou como infraestrutura clínica e operacional, sendo o eixo central do evento, com diversos exemplos de aplicação prática em suporte à decisão clínica, automação de prontuários e, de forma especialmente relevante, gestão do ciclo de receita, incluindo faturamento e redução de glosas. Os casos apresentados mostraram diagnósticos mais precoces e assertivos, além de melhora na experiência do paciente. O ponto crítico agora é claro: a IA precisa gerar retorno clínico e financeiro, e não apenas eficiência operacional.


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A interoperabilidade entre hospitais e fontes pagadoras também se confirmou como requisito para a sustentabilidade do setor, com forte ênfase na troca de dados em tempo real. As evidências são cada vez mais consistentes: sem interoperabilidade, não há coordenação do cuidado nem avanço de modelos baseados em valor. Na prática, isso compromete tanto a eficiência operacional quanto a melhoria de desfechos em escala.


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Outro movimento relevante foi a substituição de sistemas legados por ambientes em nuvem. O evento evidenciou ganhos em escalabilidade com segurança, redução de custos estruturais e capacidade analítica em tempo real. Nesse contexto, o hospital digital passa a ser entendido como uma plataforma, e não mais como um conjunto de sistemas isolados.

A cibersegurança também assumiu caráter estratégico, impulsionada pelo aumento dos ataques e pelo impacto direto que essas ocorrências têm sobre a operação hospitalar e a segurança do paciente. Segurança deixou de ser um tema restrito à TI e passou a representar risco assistencial e de negócio.

A experiência do paciente apareceu como outro vetor de transformação, já que as jornadas digitais integradas, antes, durante e após o cuidado, combinadas com telemedicina e monitoramento remoto mais maduros, tornam a relação mais fluida e contínua. O paciente passa a ser tratado como um agente ativo dentro do ecossistema de saúde.

Ao mesmo tempo, a pressão por eficiência financeira no ciclo de receita hospitalar ficou evidente na forte presença de soluções voltadas à automação de faturamento, redução de glosas e predição de risco financeiro.

Quando conectamos essas discussões à realidade brasileira, o diagnóstico é conhecido: há alta consciência e baixa execução. Hospitais brasileiros já reconhecem a importância da IA, da interoperabilidade e da jornada digital, mas ainda enfrentam fragmentação de sistemas, grande volume de legados, baixa ou nenhuma integração com operadoras e limitações de investimento. Em muitos casos, a tecnologia ainda é tratada como despesa e não como alavanca estratégica.

A passagem da estratégia para a execução é o principal gap em destaque

Hoje, a relação entre hospitais e operadoras segue como o principal gargalo estrutural do setor no Brasil, já que o modelo ainda é predominantemente transacional, baseado em fee-for-service, com alto índice de glosas, baixa transparência de dados e pouco compartilhamento de risco. O resultado é um sistema ineficiente, com custos elevados e conflito recorrente entre as partes.

A integração entre prestadores e fontes pagadoras é indispensável

Nos Estados Unidos e em outros mercados mais avançados, os dados já circulam entre hospitais e operadoras para viabilizar modelos baseados em valor, com uso de IA em autorizações automáticas, prevenção de internações, especialmente pela antecipação de eventos em pacientes crônicos e gestão populacional. No Brasil, esse cenário ainda é incipiente.

Entre as oportunidades mais aderentes ao contexto brasileiro, o ciclo de receita se destaca. Automação de solicitações de autorização e elegibilidade junto às operadoras, auditoria inteligente, faturamento automatizado e gestão de recursos de glosa são frentes com potencial imediato de impacto. Isso se conecta diretamente a players como plataformas de CRM e atendimento, além de ERPs hospitalares e operadoras, e reforça um insight estratégico relevante: quem dominar o ciclo financeiro integrado entre hospital e operadora tende a conquistar vantagem competitiva de curto prazo.

Apesar disso, a interoperabilidade no Brasil ainda é limitada. Os padrões TISS e TUSS representam um ponto de partida, mas ainda há pouca interoperabilidade clínica real e baixa troca estruturada de dados assistenciais. Os efeitos desse cenário aparecem diariamente na repetição desnecessária de exames, na baixa coordenação do cuidado e nas dificuldades para implantar modelos baseados em valor.

A alta sinistralidade nas operadoras, as margens pressionadas nos hospitais e o envelhecimento populacional criam um ambiente que exige mais colaboração entre hospital e operadora, com uso intensivo de dados para ganho de eficiência. Foi exatamente isso que o HIMSS apresentou como inevitável.

O HIMSS 2026 deixa, portanto, uma mensagem direta de que a saúde global está se tornando um ecossistema integrado, orientado por dados, no qual a tecnologia é um instrumento central para sustentabilidade financeira e eficiência assistencial. O Brasil ainda opera em silos, com baixa integração e modelo reativo. O ponto crítico já não está no acesso ao conhecimento ou à tecnologia, mas na capacidade de alinhar incentivos entre hospitais e operadoras para transformar intenção em execução.


Sobre Ximena Mosca: É Healthcare Account Director na Plusoft, com mais de 20 anos de experiência no setor de saúde, atuando em empresas como Fleury, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP, Alliança, Dasa e Bionexo. Possui sólida experiência em desenvolvimento de negócios, gestão de contas estratégicas, ciclo de receita hospitalar e negociação com hospitais, operadoras e laboratórios. Bacharel em Ciências Biológicas pela UNESP, mestre em Biologia Molecular pela USP, conta ainda com MBAs em Gestão em Saúde e Gestão de Negócios, além de formação em Saúde Baseada em Valor pelo Insper.

 

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