Estudo aponta como o Coronavírus ataca o cérebro
Ao invadir o cérebro, coronavírus mata células vizinhas ao sugar oxigênio
A Covid-19 atinge principalmente os pulmões, mas também os rins, o fígado e os vasos sanguíneos. Além desses casos, cerca de metade dos pacientes com a doença relatam sintomas neurológicos, como dores de cabeça, confusão e delirium (perturbação mental), o que sugere que o vírus também pode atacar o cérebro.
Um novo estudo oferece a primeira evidência clara de que, em algumas pessoas, o coronavírus invade as células cerebrais, sequestrando-as para fazer cópias de si mesmo. O vírus também parece sugar todo o oxigênio neurológico, matando as células vizinhas.
Não está claro como o vírus chega ao cérebro ou com que frequência isso ocorre. É provável que a infecção do cérebro seja rara, mas algumas pessoas podem ser suscetíveis por causa de seus antecedentes genéticos, uma alta carga viral ou outros motivos.
“Se o cérebro for infectado, isso pode ter uma consequência letal”, disse Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale que liderou o estudo, que foi publicado na quarta-feira (9) e ainda não foi avaliado por especialistas para publicação.
Sem muitas evidências, os cientistas tiveram que confiar em imagens cerebrais e nos sintomas dos pacientes para buscar indícios sobre os efeitos no cérebro. “Não tínhamos visto muitas evidências de que o vírus pode infectar o cérebro, embora soubéssemos que era uma possibilidade potencial”, disse o Dr. Michael Zandi, neurologista consultor do Hospital Nacional de Neurologia e Neurocirurgia da Grã-Bretanha, que afirmou que os dados do estudo ajudam a sustentar as evidências.
O Dr. Zandi e seus colegas publicaram pesquisa, em julho, mostrando que alguns pacientes com Covid-19 desenvolvem complicações neurológicas graves.
“Infecção silenciosa”
No novo estudo, a Dra. Iwasaki e seus colegas documentaram a infecção cerebral de três maneiras: no tecido cerebral de uma pessoa que morreu de Covid-19, em um modelo de camundongo e em organoides – agrupamentos de células cerebrais em uma placa de laboratório destinada a imitar a estrutura tridimensional do cérebro.
Outros patógenos – incluindo o vírus Zika – são conhecidos por infectar células cerebrais. Quando ocorre, as células imunológicas inundam os locais danificados, tentando limpar o cérebro, destruindo as células infectadas.
O coronavírus pode ser mais danoso: ele explora o mecanismo das células cerebrais para se multiplicar, mas não as destrói. Em vez disso, sufoca o oxigênio para as células vizinhas, fazendo com que elas morram.
Os pesquisadores não encontraram nenhuma evidência de uma resposta imunológica para remediar este problema. “É uma espécie de infecção silenciosa”, disse a Dra. Iwasaki. “Este vírus tem muitos mecanismos de evasão”, explica.
Essas descobertas são consistentes com outras observações em organoides infectados com o coronavírus, disse Alysson Muotri, neurocientista da Universidade da Califórnia, que também estudou o vírus Zika.
Como o coronavírus chega ao cérebro
O coronavírus parece diminuir rapidamente o número de sinapses, as conexões entre os neurônios. “Dias após a infecção, já observamos uma redução dramática na quantidade de sinapses. Não sabemos ainda se isso é reversível ou não”, disse Muotri.
O vírus infecta uma célula por meio de uma proteína em sua superfície chamada ACE2. Essa proteína aparece em todo o corpo e especialmente nos pulmões, explicando por que são os alvos favoritos do vírus.
Estudos anteriores sugeriram, com base em uma representação dos níveis de proteína, que o cérebro tem muito pouco receptor ACE2 e por isso seria poupado. Mas a Dra. Iwasaki e seus colegas olharam mais de perto e descobriram que o vírus poderia de fato entrar nas células cerebrais usando essa porta. “É bastante claro que [o receptor ACE2] é expresso nos neurônios e é necessário para a entrada”, disse Iwasaki.
A equipe então examinou dois conjuntos de camundongos – um com o receptor ACE2 expresso apenas no cérebro e o outro com o receptor apenas nos pulmões. Quando os pesquisadores introduziram o vírus nesses ratos, os ratos infectados no cérebro perderam peso rapidamente e morreram em seis dias. Não ocorreu nada com os camundongos infectados no pulmão.
Apesar das limitações em relação ao estudo com ratos, os resultados ainda sugerem que a infecção por vírus no cérebro pode ser mais letal do que a infecção respiratória, de acordo com a Dra. Iwasaki.
O vírus pode chegar ao cérebro por meio do bulbo olfatório – que regula o cheiro – pelos olhos ou até mesmo pela corrente sanguínea. Não está claro qual rota o está tomando e se faz com frequência suficiente para explicar os sintomas vistos nas pessoas. “Acho que este é um caso em que os dados científicos estão à frente das evidências clínicas”, disse Muotri.
Os pesquisadores precisarão analisar um grande número de amostras de autópsia para estimar o quão comum é a infecção cerebral e se ela está presente em pessoas com doença mais branda ou nos quadros em que se apresentam uma série de sintomas neurológicos.
Sintomas neurológicos presentes em 40 a 60% dos hospitalizados
De 40% a 60% dos pacientes hospitalizados com Covid-19 apresentam sintomas neurológicos e psiquiátricos, disse o Dr. Robert Stevens, neurologista da Universidade Johns Hopkins. Mas nem todos os sintomas são decorrentes da invasão do vírus nas células cerebrais. Eles podem ser o resultado de uma inflamação generalizada em todo o corpo.
Por exemplo, a inflamação nos pulmões pode liberar moléculas que ajudam a obstruir os vasos sanguíneos, causando derrames. “Não é necessário que as próprias células cerebrais sejam infectadas para que isso ocorra”, disse Zandi.
Porém, ele também afirma que, em algumas pessoas, pode ser o baixo nível de oxigênio no sangue das células cerebrais infectadas que leva aos derrames: “Diferentes grupos de pacientes podem ser afetados de maneiras diferentes. É bem possível que você veja uma combinação de ambos”, disse.
Alguns sintomas cognitivos, como névoa cerebral e delirium, podem ser mais difíceis de detectar em pacientes sedados e em ventiladores. Os médicos devem planejar reduzir os sedativos uma vez por dia, se possível, para avaliar os pacientes com Covid-19, disse o Dr. Stevens.
Com informações do NY Times. Edição do Setor Saúde.