Mundo, Tecnologia e Inovação | 12 de julho de 2020

Covid-19: Fabricante diz que Remdesivir reduz a mortalidade em 62%, mas falta de aprofundamento ainda gera dúvidas

Pacientes com menos de 65 anos e aqueles que não precisaram de muito oxigênio suplementar tiveram melhores resultados
Covid-19 Fabricante diz que Remdesivir reduz a mortalidade em 62%, mas falta de aprofundamento ainda gera dúvidas

O remdesivir reduziu o risco de mortalidade de pacientes com Covid-19 em 62% em comparação com o tratamento padrão, de acordo com uma nova análise dos testes divulgados pela Gilead Sciences Inc., fabricante do medicamento. A nova análise comparou os dados dos estudos em estágio avançado com o tratamento na vida real. A Gilead apresentará as descobertas na Conferência Virtual COVID-19 como parte da 23ª Conferência Internacional da Aids, informou a empresa em comunicado. Por outro lado, alguns pesquisadores pedem um maior aprofundamento e a revisão por parte de outros especialistas para garantir que os dados sejam realmente considerados como importantes.


A análise comparativa divulgada na sexta-feira (10) mostrou que a taxa de mortalidade dos pacientes tratados com remdesivir foi de 7,6% no 14º dia, em comparação com 12,5% entre os pacientes que não tomaram remdesivir. A análise também mostrou 74,4% dos pacientes tratados com remdesivir recuperados até o dia 14, contra 59% dos pacientes que receberam apenas o padrão de atendimento.


O remdesivir recebeu uma autorização de uso emergencial pelos reguladores dos EUA em maio. Um grande estudo descobriu que acelerou a recuperação em cerca de quatro dias em pacientes hospitalizados.

O Dr. Scott Gottlieb, ex-comissário da Food and Drug Administration (FDA), disse em um tweet que a notícia “é muito encorajadora, mas precisa ser confirmada em um estudo prospectivo”.

A FDA concedeu autorização somente para pacientes hospitalizados com Covid-19. A princípio, a Gilead Sciences, doou o suprimento, mas a partir da semana que vem, os hospitais dos EUA precisam comprá-lo. Segundo a CNN, alguns hospitais já sentem a falta do medicamento, o que tem gerado críticas junto ao governo dos EUA e a capacidade de atender a alta demanda por parte da Gilead.

O país registrou registrou no sábado (11) o recorde de 66.528 de novos casos do novo coronavírus em um único dia. Na última semana, em quatro dias foram registrados mais de 60 mil novos casos por dia. Mais de 135 mil pessoas morreram por causas relacionadas ao Covid nos EUA, de acordo com dados da Johns Hopkins (12/07). 

As ações da Gilead, até agora, subiram 17%, impulsionadas principalmente pela esperança de que o remdesivir se torne um medicamento amplamente adotado para o tratamento do Covid-19 em todo o mundo.



As novas descobertas

Os novos dados encontraram o maior benefício para pacientes gravemente doentes com menos de 65 anos, pessoas que não precisavam de muito oxigênio e pessoas que não receberam tratamentos para combater uma resposta imune excessiva, chamada de tempestade de citocinas. As descobertas, apresentadas quinta-feira em um briefing antes da Conferência COVID-19 na Reunião Virtual da AIDS 2020, são uma análise mais aprofundada dos resultados de ensaios clínicos publicados anteriormente no New England Journal of Medicine.

“Acho que a pergunta era quem se dá bem com o remdesivir e quem pode precisar de outra coisa”, disse a principal autora do estudo, a Dra. Kristen Marks, especialista em doenças infecciosas do Weill Cornell Medical Center.

 Medicamento não mostrou grande eficácia nos casos mais graves

Embora os resultados variem entre grupos étnicos – os pacientes eram brancos, negros, asiáticos e latinos – e regiões, os dados confirmaram que o remdesivir não é tão útil para os pacientes em estado mais grave, disse Marks.

No ensaio clínico, os pacientes hospitalizados com Covid-19 foram selecionados aleatoriamente para receber remdesivir intravenoso uma vez ao dia por cinco ou 10 dias. Não houve grupo placebo. Os pesquisadores descobriram que um curso de tratamento de cinco dias era tão seguro e eficaz quanto um curso de 10 dias.

Após um acompanhamento médio de 10 dias, 256 pacientes apresentaram melhora clínica no suporte de oxigênio e 44 morreram. Pacientes acima de 65 anos e pacientes com histórico de doença pulmonar obstrutiva crônica apresentaram maiores riscos de morrer.

“Isso mostra claramente como seria de esperar que as pessoas que precisavam de menos oxigênio e eram mais jovens se saíram melhor. As pessoas que estão menos doentes provavelmente terão um desempenho melhor”, disse George, que é o investigador principal do estudo sobre remdesivir do National Institutes of Health na Universidade de Saint Louis e não esteve envolvido com a nova pesquisa.

Considerações de parte da comunidade científica

Parte da comunidade científica, porém, declarou ter ressalvas sobre os achados. O professor Stephen Evans, professor de farmacoepidemiologia da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (Inglaterra), disse: “A Gilead Sciences fez várias coisas boas nessa pandemia, mas sua abordagem para obter evidências adequadas de ensaios randomizados para a eficácia, especialmente em termos de mortalidade, do remdesivir, ficou abaixo dos padrões que eu esperaria de uma grande empresa farmacêutica ética.” O professor Evans critica a forma de condução da divulgação adotado pela empresa. “Eles divulgaram informações de forma consistente, mas por meio de press releases, em vez de aguardarem o julgamento do relatório de pelo menos uma publicação pré-impressão. Este anúncio não é extremamente útil no nível do tratamento de pacientes, porque a quantidade de evidências adicionais randomizadas é pequena, especialmente quando é possível que a disponibilidade global do medicamento possa ser restrita. As fortes evidências aleatórias sugerem que o remdesivir reduzirá a mortalidade, mas existe o risco de ser exagerado, especialmente quando a única informação está em um comunicado de imprensa. De acordo com dados não randomizados, um nível semelhante de confiabilidade não é garantido. ”

O professor Martin Landray, professor de medicina e epidemiologia, departamento de saúde da população de Nuffield, Universidade de Oxford (também da Inglaterra), entende que “o que foi relatado hoje é uma associação – os resultados da comparação de dois grupos bastante diferentes de pacientes. É impossível tirar conclusões sobre os verdadeiros efeitos do remdesivir na sobrevivência. Para isso, precisamos de evidências robustas de grandes ensaios clínicos randomizados – e simplesmente ainda não possuímos isso. ”

Disputa internacional pelo medicamento

No dia 29 de junho, o Departamento de Saúde e Serviços Sociais dos Estados Unidos (HHS, na sigla em inglês) anunciou um acordo com o laboratório Gilead Sciences para garantir que praticamente toda a produção do remdesivir permaneça no país nos próximos três meses.

Na ocasião, o HHS anunciou que reservou a aquisição de 500.000 tratamentos de remdesivir, sendo 94.200 a serem fabricados em julho, 174.900 em agosto e 232.800 em setembro. Estas cifras representam 100% da produção do remdesivir da empresa em julho, e 90% em agosto e em setembro.

No dia 25 de junho, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA, sigla em inglês) recomendou a autorização “condicional” da comercialização do medicamento remdesivir para o tratamento de Covid em pacientes que tenham desenvolvido pneumonia com necessidade de apoio mecânico para a respiração (uso de respiradores). A autorização “condicional” significa que ela autoriza o medicamento a ser comercializado com uma menor exigência de informações comumente solicitadas, o que agiliza o acesso ao produto.



O remdesivir já foi usado em pacientes com ebola, e recentemente foi autorizado para o coronavírus SARS-CoV-2 baseado em um ensaio clínico que demonstrou que o tratamento reduz a tempo de recuperação em alguns pacientes. Os pacientes hospitalizados que fizeram uso do remdesivir se recuperaram  em menos tempo, em média, passando de 15 para 11 dias, segundo estudo publicado no NEJM.

Tendo em conta os dados disponíveis, a EMA considerou que o equilíbrio entre benefícios e riscos se mostrou positivo em pacientes com pneumonia que necessitam de respiradores, pacientes com doenças graves e, portanto, optaram por autorizá-lo.

Um tratamento à base de remdesivir utiliza seis doses, em média, e custará oficialmente quase US$ 3.200 (cerca de R$ 17 mil).

No Brasil, Anvisa autorizou testes com remdesivir e ruxolitinibe

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, no dia 24 de junho, em edição extra do Diário Oficial da União (D.O.U.), a autorização para a realização de estudos clínicos relacionados à Covid-19. O objetivo das pesquisas é testar medicamentos experimentais no tratamento de pacientes hospitalizados com quadros graves provocados pela doença.

O remdesivir faz parte do primeiro deles, em um estudo de fase 3 destinado à avaliação da eficácia e da segurança do medicamento em pacientes com pneumonia grave provocada pela Covid-19. Nesta pesquisa, o produto será usado no tratamento de dois grupos, sendo que um receberá o medicamento associado ao fármaco tocilizumabe e outro será tratado com o remdesivir com placebo.

O pedido de autorização dessa pesquisa foi feito pela empresa PPD do Brasil Suporte a Pesquisa Clínica Ltda. De acordo com o protocolo clínico, o estudo deve envolver um total de 105 pacientes.

A outra autorização é referente a um estudo, também de fase 3, desenvolvido para avaliar a eficácia e a segurança do medicamento experimental ruxolitinibe em pacientes com “tempestade de citocinas” associada à Covid-19. Esta situação ocorre quando o organismo gera uma quantidade exagerada de defesas (citocinas) contra a doença, causando agravamento do quadro clínico. A pesquisa é da Novartis Biociências S.A. e deve incluir 60 pacientes.

Versão inalada e países que já estão utilizando

A empresa também disse que espera iniciar testes em agosto de uma versão inalada do medicamento, mais fácil de usar, atualmente administrada apenas por via intravenosa.

O remdesivir já está sendo usado para Covid-19 nos EUA, Japão, Coreia do Sul, Índia e Bangladesh. As farmacêuticas indianas Hetero Labs e Cipla Ltd obtiveram aprovação para começar a vender versões genéricas do remdesivir no país asiático. A Hetero espera que o tratamento tenha preço entre 5.000 e 6.000 rúpias (66 a 79 dólares) por uma dose de 100 miligramas. Em Bangladesh, o fabricante de medicamentos Beximco Pharmaceuticals, tornou-se a primeira empresa a anunciar que venderá uma versão genérica do remdesivir, no mês de maio.

A expectativa da Gilead é ter vendas entre 2 e 3 bilhões de dólares entre 2020 e 2021, a um preço entre 1 mil a 2 mil dólares por tratamento (dez dias de uso), segundo o analista do banco de investimentos Jefferies, Michael Yee.

 

Com informações dos sites Bloomberg, SMC, CNN, NBC News e El País Brasil. Edição do Setor Saúde.



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