Gestão e Qualidade, Tecnologia e Inovação | 7 de janeiro de 2026

As tendências tecnológicas na saúde para 2026

Uso crescente de IA, busca por eficiência e integração de dados aparecem como eixos centrais apontados por especialistas.
As tendências tecnológicas na saúde para 2026

O setor de saúde brasileiro chega em 2026 após um ciclo de aceleração tecnológica que marcou os últimos anos. A pesquisa TIC Saúde 2024 mostrou que ferramentas de inteligência artificial já fazem parte do cotidiano clínico: 17% dos médicos no Brasil utilizam IA generativa em suas rotinas, enquanto entre enfermeiros o índice chega a 16%. O movimento se intensifica à medida que instituições públicas e privadas adotam soluções digitais para diagnóstico, automação de processos, triagem assistencial e gestão de agendas, impulsionando uma nova forma de operar o cuidado.


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Esse avanço não ocorre apenas no setor privado: no primeiro semestre de 2025, o Ministério da Saúde incorporou 28 novas tecnologias ao SUS — entre medicamentos, dispositivos médicos e procedimentos. Trata-se do maior volume de incorporações em sete anos, segundo dados da Conitec. O recorte demonstra que a inovação no país não está restrita ao mercado e às healthtechs, mas influencia diretamente a política pública de acesso à saúde, e amplia o repertório de soluções disponíveis ao cidadão.



Veja abaixo as principais tendências mapeadas por especialistas:

A IA como parceira na automação e transformação do setor

De acordo com a Semantix – deep tech brasileira referência em Big Data, Analytics e Inteligência Artificial – uma das principais tendências para 2026 é a emergência da IA agentiva como parceira autônoma, marcando a transição da IA de ferramenta auxiliar para atuante  proativa e autônoma nos fluxos assistenciais e operacionais. Estima-se que, ao longo do próximo ano, a maioria das instituições avançadas priorize a adoção de agentes inteligentes. Segundo Alexandre Caramaschi, CMO da Semantix, empresa pioneira em IA e dados na América Latina, esses agentes já demonstram ganhos concretos, como no caso de um agente de faturamento que processa contas dez vezes mais rápido que humanos, com 98% de eficiência, reduzindo custos e liberando equipes para atividades clínicas e estratégicas.


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Outro ponto a se atentar é a automação inteligente de processos, que ultrapassa o modelo tradicional de RPA para atuar em operações hospitalares, otimizando fluxos operacionais em áreas como suprimentos, auditoria e agendamento e  o avanço do analytics preditivo e da medicina antecipatória, pois traz modelos capazes de prever eventos clínicos antes que ocorram. Hospitais que adotaram alertas de IA para sepse, por exemplo, relatam economias anuais de até US$1,2 milhão ao evitar agravamentos. “A IA está transformando a saúde de forma silenciosa, porém profunda, conectando dados, antecipando riscos e atuando como copiloto das decisões clínicas. Estamos diante de um novo padrão de eficiência e cuidado e estas tendências no setor demonstram isso”, afirma Caramaschi.

Agentes digitais e processos

Quando se trata da jornada do paciente, a IA deixa de ser uma solução pontual e passa a ser o motor da automatização inteligente de ponta a ponta. Na visão de Roberto Dozol Machado, CEO da Nina Tecnologia, uma das tendências em tecnologia para a saúde em 2026 é justamente essa capacidade de usar intensivamente inteligência artificial em agentes digitais e na orquestração de processos, conectando todos os pontos da experiência do paciente. “A discussão já saiu do ter ou não ter sistema. O desafio agora é como conectar tudo isso em fluxos contínuos e inteligentes”, afirma. Hoje, a IA já aparece em triagem, monitoramento e apoio à decisão clínica, além de agentes conversacionais que falam com o paciente em canais como WhatsApp, aplicativos e portais, conduzindo desde o agendamento até o pós-atendimento.

Para 2026, Roberto avalia que essa tendência se consolida porque responde a três dores simultâneas do sistema de saúde. A primeira é a escassez de pessoas e a pressão crescente por eficiência: ao automatizar tarefas repetitivas, as instituições liberam equipes assistenciais e administrativas para atividades de maior valor. A segunda é a necessidade de coordenação do cuidado, conectando agendas, prontuários, faturamento e comunicação em fluxos únicos, o que reduz retrabalho, faltas e gargalos, além de melhorar a experiência percebida pelo paciente. A terceira está ligada ao uso mais maduro de IA generativa e analítica, com modelos mais confiáveis capazes de personalizar interações, prever comportamentos como risco de falta e acionar automaticamente a próxima ação em tempo real. “Estamos falando de impacto direto em acesso, sustentabilidade econômica e qualidade assistencial. Quem conseguir orquestrar bem esses elementos vai conseguir entregar um sistema de saúde mais ágil, integrado e centrado no paciente”, conclui Roberto.

Tão importante tanto a IA, a eficiência

A busca por eficiência operacional deve se consolidar como uma das principais tendências para a saúde em 2026, especialmente em um cenário de pressão financeira crescente e demanda por cuidado de qualidade. Instituições públicas e privadas tendem a priorizar tecnologias que reduzam desperdícios, minimizem retrabalho e otimizem o tempo clínico e administrativo. Isso inclui desde sistemas de automação inteligente até soluções de triagem e priorização de exames, capazes de agilizar o fluxo assistencial sem comprometer a precisão diagnóstica. A eficiência deixa de ser um diferencial desejável e passa a ser um critério estruturante para a sustentabilidade do setor.

Segundo Roberto Ribeiro da Cruz, cofundador da Pixeon, empresa brasileira de tecnologia para a saúde, a próxima etapa da transformação digital não será definida apenas pela adoção de IA avançada, mas pela sua capacidade de entregar resultados concretos. “A verdadeira inovação na saúde não está apenas no acesso a tecnologias sofisticadas, mas na melhoria mensurável de processos fundamentais do cuidado. Reduzir filas, acelerar diagnósticos e otimizar recursos humanos, esse é o impacto real que a tecnologia precisa gerar”, garante. Para Ribeiro, a eficiência será o eixo que guiará as decisões de investimento, trazendo foco para soluções pragmáticas e integradas que resolvam problemas históricos da jornada assistencial.

Maturidade na governança e regulação de dados

Para Flavio Exterkoetter, médico e CEO da healthtech Blendus, 2026 será marcado por uma transformação estrutural impulsionada pela maturidade da governança de dados, especialmente no contexto regulatório. O executivo afirma que o avanço do Padrão TISS como base para monitoramento assistencial, para a transição do Sistema de Informações de Produtos (SIP) e o compartilhamento na Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), uma plataforma do Ministério da Saúde para integrar sistemas de saúde pública e privada,  inaugura um novo patamar de padronização e comparabilidade entre operadoras. Segundo Exterkoetter, a consolidação desses ambientes de dados interoperáveis permitirá decisões mais rápidas, redução de inconsistências e maior previsibilidade no relacionamento com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), fortalecendo a sustentabilidade do setor.

O CEO da Blendus  destaca ainda que a evolução do Índice de Desempenho da Saúde Suplementar (IDSS) como instrumento estratégico deve ganhar relevância no próximo ano. “Operadoras que tratam o índice apenas como indicador de desempenho tenderão a ficar para trás, enquanto aquelas que utilizam seus componentes para guiar ações internas, integrar áreas assistenciais e aprimorar o cuidado terão vantagens competitivas”, analisa.  O executivo  avalia que 2026 será o ano em que a regulação baseada em dados deixará de ser vista como obrigação e passará a ser incorporada ao planejamento de longo prazo, impulsionando modelos assistenciais mais coordenados e efetivos.

Exterkoetter também aponta que o setor vive uma mudança cultural orientada pela qualidade e pela precisão das informações. “A  eficiência operacional e a entrega de valor na saúde suplementar dependerão cada vez mais de dados completos, interoperáveis e atualizados em tempo real, permitindo análises preditivas mais precisas”, destaca, reforçando que o uso estratégico de dados será determinante para que operadoras desenvolvam modelos de cuidado centrados no beneficiário, com maior capacidade de antecipar riscos, mitigar desperdícios e garantir sustentabilidade em um cenário regulatório mais exigente.

IA em tempo real lidera tendências tecnológicas para saúde em 2026

A gestão hospitalar em tempo real com apoio de agentes de IA deve se consolidar como tendência em 2026, segundo Carlos Marcondes, Diretor de Growth da UpFlux. “Imagina você gerenciar 400 leitos num grande hospital, com vários andares, tipos diferentes de comorbidades, gravidades, procedimentos, equipes. É uma operação de guerra”, comenta. Ele explica que a tecnologia permite orquestrar essa complexidade sem eliminar o fator humano: “Quando colocamos a IA gerindo essa jornada, com uso de agentes para fazer alertas e tomar decisões, estamos potencializando a eficiência desses processos e agilizando as etapas, além de fazer com que sobre mais tempo para que as pessoas se dediquem a problemas que a tecnologia não consegue resolver. E às vezes esquecer alguma coisa ou errar numa internação custa a vida de uma pessoa ou, no melhor cenário, custa muitos milhares de reais”.

O setor também deve avançar além dos dashboards tradicionais, migrando de Business Intelligence para inteligência de processos em tempo real. “A saúde ainda trabalha muito com BI e dashboards comuns, mas esse modelo tem limitações. Atuar apenas com médias e indicadores pode mascarar problemas críticos”, observa o executivo, que acompanha a implementação desses processos em mais de 60 operações entre hospitais e operadoras.

Outra tendência apontada é a aplicação de tecnologias já consolidadas na indústria para modernizar a gestão de compras hospitalares. O diretor conta que itens do dia a dia, como produtos de limpeza, copos descartáveis e uniformes, podem ser adquiridos com muito mais eficiência quando se aplica inteligência artificial ao processo. “A gente consegue trazer metodologias que já funcionam bem na indústria para a dinâmica hospitalar, com muito mais velocidade”, afirma. 

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